25 novembro 2012

A mulher que colecionava nãos por Camila Gomes

25 de novembro - Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres

Antes de falarmos dessa moça, é importante ressaltar que todo relacionamento começa de um detalhe, um olhar que te prende, uma gentileza que te conquista, uma beleza que te encanta. Cometemos um grande erro ao sustentar uma relação baseada nas expectativas que foram criadas neste primeiro contato, e assim, nos cegarmos ao ponto de ignorar a verdade que está sempre diante dos nossos olhos. 
O alívio e a perda chegaram juntos na vida de Ana. Agora, ela chora a dor que a paz lhe trouxe. Ele se foi. A casa parece maior, o coração parece vazio. Ana sabia que uma hora isso aconteceria, aquele homem precisava partir para que ela tivesse sua vida de volta. Chorando ela leu o bilhete deixado na porta da geladeira, em seguida foi para o quarto, o cheiro dele ainda estava no lençol, sua blusa preferida foi deixada para trás. Do guarda-roupa, Ana retirou uma caixa que continha todos os nãos que ela guardou. Em soluços, se perdeu em meio as lembranças. 
Como ela poderia se esquecer do primeiro não? Lembra como se tivesse acabado de acontecer. Um mês de namoro. O motivo foi um atraso bobo, dez minutos apenas, a culpa sequer foi dela, mas aquele homem nem quis saber e gritou feito um louco. Ana deveria ter dito: "Não! Não aceito que fale comigo dessa forma." Mas, o relacionamento era recente, ela estava apaixonada e ficou com medo de que ele desfizesse tudo ali mesmo, caso fosse contra a atitude dele, por isso ela apenas se desculpou, guardou aquele não, o primeiro não, e jurou a si mesma que usaria quando realmente fosse necessário.
Ele gritou e não a perdeu. Ana aceitou aquilo como um defeito, uma mania feia que com o tempo poderia ser deixada de lado. Assim, ele continuou gritando sempre que algo lhe desagradava, porém, seus gritos já não assustavam Ana. Ele precisava se impor de outra forma. Certa vez, os dois combinaram de ir à um jantar com um casal de amigos. Ana estava linda, ele sabia que seria impossível outro homem não admirá-la e se encheu de ciúmes. Como tirar o brilho de Ana? Como impedi-la de sair tão bela? A ofensa foi sua arma. Disse que o vestido ficaria melhor se ela não fosse tão gorda, se o cabelo não fosse tão feio, e a acusou dizendo que sua intenção era atrair o olhar de outros homens, que ela não prestava e usou palavras horríveis. Como ele foi capaz de falar e pensar isso dela? Era a hora de Ana dizer: “Não! Não aceito que me ofendam dessa maneira.” Mas, ela já o amava tanto. Naquela noite sua beleza foi roubada pelas duras palavras daquele homem, para não perdê-lo, outro não foi guardado naquela caixinha.
Ele gritou, ofendeu e não a perdeu. Os momentos agradáveis da relação serviam para alimentar a esperança de havia um bom homem por trás de tanta grosseria, afinal ele dizia que tudo o que fazia era por amá-la demais. Foi por amor que ele a proibiu de sair sozinha. Um dia, Ana sentiu vontade de caminhar, olhar as vitrines, tomar um sorvete, mas se esqueceu de avisá-lo. Ele a encontrou na rua, furioso a pegou pelo braço e a arrastou por três quarteirões, deixando a na porta de casa novamente. Pensei que Ana usaria o não. Pensei que diria: “Não!Não aceito que me toque dessa forma.” Mas, quando viu aquele homem em prantos pedindo que ela o perdoa-se, Ana, que sempre teve um bom coração, decidiu guardar também esse não. E ainda, prontificou-se a ajudá-lo a controlar suas emoções.
Ele gritou, ofendeu, maltratou e não a perdeu. Dois anos de namoro e eles decidiram morar juntos. Ana levou consigo sua caixa de nãos. O não que deveria ter dito quando ele a proibiu de falar com seus amigos. O não que deveria ter dito quando ele quebrou todos os presentes que ela tinha ganhado de outras pessoas. O não que deveria ter dito diante das ameaças daquele homem. O não que ela deveria ter dito por causa das feridas emocionais que ele lhe causou. A caixa já estava cheia, mas ela foi obrigada a colocar um novo não, o não mais sofrido, o não que mais desejou falar, e que já tinha um destino definido, a caixa, pois dizê-lo poderia trazer consequências piores. Ana não saía de casa, não tinha amigos, mas ele sismava que ela o traía. Mesmo suportando tudo isso, para ele, ela nunca o amou o suficiente. Por ele pensar assim, inúmeras vezes, Ana se viu esparramada no chão, sentindo as dores da raiva daquele homem. No corpo carregava as marcas dos socos e chutes que recebia quase que diariamente. Ana queria dizer: "Não! Não posso aceitar que me machuque." Mas, já não podia usar o não. Ana, nossa amável e delicada Ana, porque não disse não, quando alguém foi capaz de gritar com uma pessoa assim tão doce? 
Ele gritou, ofendeu, maltratou, machucou e ... a matou? Não! Dessa vez, a vida gritou esse não por Ana. Esse homem gritou, ofendeu, maltratou, machucou e, por sorte, deixou apenas um bilhete na porta geladeira, dizendo que não a queria mais, que nunca a amou e que por esse motivo estava indo embora para sempre. Sozinha, Ana sente um peso sendo retirado do seu ombro, mas sofre pela morte da esperança que tinha de que ela o mudaria. Ana pensa que ainda ama aquele homem, mas na verdade ela sempre amou as expectativas criadas no primeiro contato dos dois, e por essa expectativa continuou lutando mesmo sem força. Hoje, não importa se ela foi machucada uma vez ou as mil vezes que ele a feriu, o que ela temia lá no começo aconteceu, foi apenas adiado da forma mais dolorosa possível. Por insistir, Ana, como vitima, só aperfeiçoou as atitudes do agressor. Quando o grito parou de fazer efeito, ele lançou mão das ofensas. Quando Ana já suportava as feridas emocionais, começaram as agressões físicas, e se o agressor não tivesse parado por aí, chegaria ao ápice de seu aperfeiçoamento, que era tirar a vida da nossa Ana.
É verdade que o amor tudo sofre, como também é verdade que o amor nunca, nunca machuca alguém. Sofre por amor o casal que junto decide suportar a distância que o separa. Sofre por amor o casal que junto enfrenta uma doença. Sofre por amor o casal que junto passa por uma crise financeira. Agora, quando um dos dois decide provocar o sofrimento na relação, é sinal de que o amor não está presente. 
Se enganar por causa de um olhar, de uma gentileza, por causa da beleza de alguém, acontece. Agora, insistir, guardar os nãos, aceitar ser maltratado, é uma escolha. Nenhum relacionamento começa com um pontapé, um murro ou uma facada nas costas.  Você nunca ouvirá uma mulher dizer: “Eu estava sentada admirando a paisagem, ele chegou me deu um soco e não teve jeito, eu me apaixonei.” É preciso caminhar para esse fim, é preciso ignorar muita coisa, é preciso esquecer seu valor para chegar a esse ponto. 
A mulher é o sexo frágil sim, e deve ser tratada com a delicadeza que a natureza feminina exige. Ei, princesas, não abram de suas coroas. Príncipes, não menosprezem o maior bem que podem conquistar. Não diminuam a beleza do amor contentando-se com tão pouco. Muitas mulheres desejaram a sorte Ana, mas infelizmente hoje não estão aqui para narrarem suas historias. Ana chora porque no fundo sabe que se tivesse dito não naquela primeira oportunidade, hoje sua caixa estaria vazia.



Hoje, é difícil ler um jornal onde não haja um registro de violência contra a mulher. Na maioria dos casos esses crimes são cometidos pelos maridos e companheiros das vítimas. Nosso papel é incentivar a denúncia. Conscientizá-las de que as atitudes da vítima podem aperfeiçoar o agressor. Por uma vida sem violência! Temos nossas palavras, vamos usá-las juntos!

Este e mais textos você encontra em: Encontra-me em minhas palavras...  

6 comentários:

Iana Paulinha disse...

Vish sinistro! kkk

flor a paleta custou 230 reais! bjs

Vanessa Alves disse...

Sinistro mesmo, porém realista.
230? O.0
Nem foi cara imagiina, aiin como eu queria uma paleta desta.

beijos :*

Camila Gomes disse...

Vanessa, muito obrigada por compartilhar.
Devemos sempre nos importar com causas assim, e alcançar vidas com as ferramentas que temos, sendo o blog um ótimo canal para isto.

Um forte abraço.
Camila Gomes

Vanessa Alves disse...

Achei tudo este texto.
E vamos por um fim a violência contra a mulher.

Outro abraço.

Andreza Paixão-Christian Girl disse...

Todos (as) Contra a Violência contra a mulher :D
http://dezapaixao.blogspot.com.br/

Carlos Rímolo disse...

Querida amiga Vanessa !
Perdoa-me a invasão de seu espaço, mas achei-o na NET por acaso e resolvi visitá-lo. Gostei do que vi. Seu texto é interessante. Parabéns. Já sou seu seguidor.
Beijos de luz !!!

POETA CIGANO - 27/11/2012

http://carlosrimolo.blogspot.com